Perros hay por todos lados, no importa la ciudad en que uno elija vivir. También hay chicas. No sé de ninguna ciudad que no tenga perros ni chicas. Ni consigo imaginarla. Seria como sacarle a una ciudad toda dulzura e ingenuidad - lo digo por los perros -, todo encanto y delicadeza. Son vulnerables, son presas fáciles, los perros y las chicas. Aunque tengan colmillos y palabras afiladas, aunque disimulen y ladren, saquen uñas y dientes, así sonrían o amenacen a regañadientes. En la noche oscura de la ciudad son presas y son frágiles. En la ciudad violenta las chicas se arman con perros. Junte um bico com dez unhas quatro patas trinta dentes. El barrio universitario lleno de chicas solas que vienen de los pueblos, se llena igualmente de perros. Y por las noches, ya muy entrada la noche, ya muy oscura, tras los párpados cerrados, se los escucha a veces a los perros, a veces a las chicas. Y en el torpor del ensueño no sabemos quien grita.
Cachorros Soltos
01 Abril 2012
11 Fevereiro 2012
Sou eu que vou
sou eu que vou
e no meu lugar deixo uma saudade de mim
como um buraco no vento
vejo
o espaço que não vou ocupar
as palavras que não farei ouvir
minha falta
meu silêncio
sou eu que vou
e no meu lugar imagino um suspiro
que cai ruidoso na mesa de domingo
dói hoje em mim o amanhã
em que ontem era comigo
e no meu lugar deixo uma saudade de mim
como um buraco no vento
vejo
o espaço que não vou ocupar
as palavras que não farei ouvir
minha falta
meu silêncio
sou eu que vou
e no meu lugar imagino um suspiro
que cai ruidoso na mesa de domingo
dói hoje em mim o amanhã
em que ontem era comigo
04 Fevereiro 2012
Uma mão lava a outra
O que não quer dizer apenas troca de favores ou companheirismo. Significa, antes de mais nada, que uma mão sozinha não consegue se lavar bem. Descobri isso de maneira um tanto dolorosa: fratura dupla no dedo médio da mão direita. Resultado: dedo imobilizado, mão direita praticamente inutilizada, o braço esquerdo já fatigado do uso exagerado dos últimos dez dias, o pescoço endurecido e as costas descompensadas. Além da dor e do desconforto, a adaptação é difícil, tudo fica a meio fazer e o que é feito leva pelo menos o triplo do tempo. As unhas vão ficando compridas e quebradiças, as sobrancelhas simplesmente crescem. Não posso escrever à mão e digitar cansa o braço inteiro. Vou terminar essa recuperação com uma tendinite em ambos antebraços.
A mão esquerda aprendeu a se lavar sozinha, a amarrar cadarço, a pentear cabelo, a escovar os dentes, a segurar o garfo, a estar alerta a qualquer tropeço ou escorregão, porque é ela que fica livre pra aparar uma possível queda. Aprendeu a sacudir o saleiro, a descascar fruta, e se tivesse aprendido a falar já tinha xingado a outra de tudo que é nome feio. Além de fazer todo o trabalho, ainda tem que se cuidar pra não se cortar nem se queimar, pra não se machucar nem se cansar demais, porque no dia seguinte ela volta ao trabalho. Coitada, exausta, ela sente saudade, se sente enganada. Não nasceu pra isso. Nasceu pra ficar na sombra, no apoio, no anonimato. Porque quando ela se lava sozinha, fica meio suja. Porque o cadarço fica torto e o cabelo lambido, a comida salgada e a fruta com pedacinhos da casca. Minha mão esquerda tá contando os dias, as horas, eu também.
A mão direita, lá do outro lado, não sabe tirar férias. Fica estressada tentando ajudar, fazendo de conta que não aconteceu nada. Se vira e se contorce pra segurar uma faca, uma pasta de dente, e quando ela menos espera, uma dor, uma pontada vem lembrar ela de sua condição de acidentada. Workaholic, ela se aquieta um pouco, mas logo se recupera e começa tudo de novo.
Dez, nove, oito...contando os dias e as horas pra ver de novo uma mão lavando a outra.23 Janeiro 2012
Casa de praia
Um grauçá andando em círculos excêntricos enquanto carrega um tufo de areia três vezes mais pesado que seu próprio corpo etéreo deve ter uma explicação científica. Bem antes de começar seu desenho bêbado ele apareceu a menos de trinta centímetros do meu rosto enquanto eu tomava sol deitada na areia da praia. Não é comum ver um grauçá tão de perto. Fiquei bem quieta pra aproveitar meu momento national geographic, não sem antes analisar cuidadosamente seus sete ou oito centímetros de pata a pata e suas pequenas puãs para o caso de ele resolver beliscar o meu nariz ou a minha orelha. Ele também ficou bem quieto. Conferi pela visão periférica que ninguém viesse perturbar aquele escrutínio mútuo e vendo que a praia continuava deserta, me detive a percorrer a anatomia curiosa do bicho: dos olhos negros abertos em canivete aos pelinhos quase invisíveis das patas, depois de volta para os olhos rígidos em riste. Tudo tão perto que eu quase nem respirava pra não mexer as narinas e rezava pra nenhuma mosca pousar nas minhas pernas ou nádegas. Ele também me olhava completamente imóvel. Começamos a brincar de quem aguenta mais tempo sem piscar. Perdi. Constatação científica: se quiser brincar de quem aguenta mais tempo sem piscar, arrume outro bicho. Grauçá não pisca. Foi aí que ele começou a andar em círculos excêntricos se afastando aos poucos, o tufo de areia sempre debaixo de sua carapaça. A única explicação que me veio foi a de estar talvez deitada sobre a entrada de sua casa de praia. Mas a reflexão e a observação foram subitamente atravessadas por uma onda que subiu na parte mais alta da areia e me fez pular e levantar os chinelos e a toalha. Desapareceu o grauçá e eu não pude constatar nada. Nem pensar. Eu tinha ido à praia sozinha pra pensar na minha vida.
08 Janeiro 2012
Quebra-cabeça
Engraçado pensar em alguém, saber que é errado, que não convém. Saber que mente, que é inexperiente e, ainda assim, querer bem. Não sei se é engraçado, talvez seja só diferente sentir dificuldade para encontrar adjetivos e qualidades. Repassar fatos e frases, duvidar. Desacreditar de elogios sinceros e recuperá-los somente depois e ouvi-los no silêncio sem ninguém. Descobrir em alguns pequenos gestos sem palavras um carinho verdadeiro, um afeto. Viver de fragmentos. Sei que é errado, sei que mente, mas é engraçado; não mais o fato, senão ele, a gente, e isso é já uma qualidade, ainda que não seja suficiente para querer bem, para pensar em alguém. Procuro, repasso, duvido, resgato. As peças desencaixam do tabuleiro permanentemente. Eu não me inquieto. Engraçado.
12 Outubro 2011
Será que dá pra lavar geléia?
Quem me conhece sabe que eu sou de dormir tarde. E às vezes, momentos antes de ir pra cama, já de madrugada, bate aquela fominha, aquele buraco no estômago. Nestes momentos como qualquer coisa, o que estiver mais fácil, que não dê trabalho e que não atrapalhe o sono. Como de pé na cozinha, na bancada, na beirada da pia. É rápido: uma maçã ou um iogurte, às vezes um nescau quente com alguma bolacha. Dia desses eu tinha dois biscoitos sabor limão e um resto de geléia de pêssego que não chegava a encher uma colherinha de café. Era perfeito: meia colheradinha pra cada biscoito. Mas a geléia é escorregadia. O biscoito era fininho. E eu já sonolenta coloquei a geléia de qualquer jeito em cima do primeiro biscoitinho. Ela deslizou e pum, caiu dentro da pia da cozinha, que infelizmente não estava vazia, mas cheia de panelas e pratos. Eu não podia acreditar. Fiquei olhando pra ela e lamentando alto, com aquele chorinho que a gente faz sem chorar. No pote de geléia restava agora menos de meia colherinha de café, só dava pra um dos dois biscoitinhos de limão, que casam perfeitamente com o sabor leve do pêssego. Tinha doce de leite também na geladeira, mas antes de partir pra outro sabor bem diferente, voltei a olhar pra dentro da pia e me perguntei: será que dá pra lavar geléia?
Sei que pra cada pessoa é diferente, mas pra mim sempre foi muito difícil romper com aqueles padrões de comportamento ou condicionamentos que estão mais grudados na gente, colados na pele, tanto que normalmente a gente nem consegue enxergá-los direito. Me refiro a bobagens como, por exemplo, tomar a cerveja toda, mesmo que esteja quente, e a uma infinidade de outros pequenos e perversos condicionamentos diários, de que nem consigo me lembrar direito. Nos últimos anos tenho estado mais atenta a isso, e essa atenção tem me mostrado o quanto é difícil ser livre. Não apenas libertar-nos de repressores ou censores externos, mas perceber o quanto nos censuramos e reprimimos cotidianamente, nos atos mais impensados, nas coisas mais ínfimas, nos automatismos constantes. Condicionamentos e padrões são correntes invisíveis que a gente carrega pra todos os lados. Mesmo nus permanecemos com algum tipo de roupagem, de atadura. E ela se confunde com a pele, se mimetiza, é um hospedeiro nocivo e silencioso. Sinto que é preciso lutar também contra a prisão que isso representa. É difícil. É árduo. Mas ir se libertando aos poucos desses condicionamentos vai deixando a gente mais solto, menos mecânico, mais criativo e aberto a novas possibilidades. Pode ser útil em alguns momentos, pode ser divertido, pode ser ridículo ou bizarro, mas pode ser muito interessante tomar a contramão do pensamento, pensar fora dos trilhos, ver aquilo de sempre de um modo tão diferente.
Uma vez soltei um peido na seção de perfumes de um freeshop (ia dizer um pum, que fica mais delicado, mas aquilo não foi um pum, foi um peido mesmo). Não fez barulho. Mas subiu como uma alma podre vinda dos quintos dos infernos. Existe lugar mais apropriado pra soltar um peido bem fedorento? Pense: está todo mundo de férias, relaxado, pesquisando odores, aspirando, cheirando, escolhendo entre Calvin Klein, Dior, Chanel e Yves Saint Laurent, olfato aguçado, narinas abertas, atentas às pequenas sutilezas. Tive de ser uma grande atriz naquele momento. Saí de perto enquanto ainda não se sentia o intruso, mas não fui muito longe, apenas alguns metros, pra observar a reação dos outros compradores. Continuei experimentando perfumes (era uma seção enorme e super variada) enquanto a carniça tomava conta do ambiente (estava há três dias sem ir ao banheiro, coisas de viagem) e precisei de muito autocontrole pra não explodir na risada, coisa que fiz cinco minutos depois, na seção ao lado. E coisa que faço cada vez que me lembro da cara de um homem que foi levantando aos poucos a cabeça sem conseguir acreditar no que estava acontecendo e tentando imaginar quem poderia ser o autor de algo tão desaforado e virulento: nunca uma moça jovem, branca, bem vestida, magra e lívida como eu naquele momento. Devo confessar que foi irresistível, a ocasião perfeita, um convite. E ter me permitido algo tão vil foi impagável. Uma manifestação de rebeldia, quase um atentado: contra o consumismo, contra os grã-finos, os importados, os desodorizantes de ambientes e o papel-higiênico perfumado. Pequena vingança. Ridícula até. Mas ser livre é um processo lento e longo, e provavelmente nunca acabe.
Releio o último parágrafo e sinto vergonha de publicá-lo. Penso em outro modo de contar o fato, sem perder a classe. Relaxo, sigo em frente. A vergonha é mais uma daquelas correntes, mais um esparadrapo na boca da gente. Lembro agora da história, que não posso deixar de contar, de um músico baiano louco e brilhante que, indo pela enésima vez cobrar por um trabalho já terminado, quando lhe disseram que ainda não tinha saído o pagamento começou a latir como um cão danado. Nem preciso contar que o cheque apareceu naquele mesmo instante.
Quanto à geléia: sim, enxaguei-a em água corrente, coloquei em cima do biscoito e abocanhei-o rapidamente, rindo e me sentindo um pouquinho menos prisioneira de hábitos e padrões de pensamento.
09 Outubro 2011
Uma flor sem adjetivo
Meu vizinho do apartamento de cima viajou para a Alemanha por uns tempos. Antes que se mudasse, subi um dia e me ofereci para cuidar as plantas que tivesse, para comprar sua geladeira ou algum móvel de que ele precisasse se desfazer. Dias depois encontrei do lado de fora da porta de entrada, alinhados junto à parede do hall, três vasos de plástico. O maior deles tinha uma planta mirrada, de folhas compridas e carnudas, sem graça e maltratada, e, em volta dela, uns pezinhos de erva daninha que nasce sem ser convidada em qualquer terra. Em outro vaso, quase de mesmo tamanho e forma, havia apenas terra ressecada e cinzenta. O último era pequeno e com uma pequena planta dentro, de folhas miúdas e gordas, que resistiu à falta de água e alimento. Ri surpreendida com aquele quadro desolador e árido, bem diferente do que eu tinha imaginado. Duvidei entre jogar no lixo ou entrar as plantas e aproveitar talvez a terra ou os vasos para enfeitar, com mudas novas, o belo balcão que tem do lado de fora da grande janela de vidro da minha sala. Coloquei-as ali, junto à Aloe Vera enorme e selvagem que herdei da antiga moradora da casa, e comecei a molhar tudo de vez em quando na esperança de que se recuperassem ou que da terra brotasse algo vindo de alguma raiz oculta mas ainda viva. Com a proximidade da primavera e os primeiros dias de calor, novas folhas carnudas brotaram nos dois vasos, sem que isso mudasse significativamente o cenário desagradável. Ontem pela manhã, no entanto, assim que saí do quarto, os olhos apertados ainda pelo contraste com a claridade da sala, chamou minha atenção uma luz estranha em meio ao verde das ramas do jasmim do prédio que se enroscam na grade do balcão: um ponto rosa estridente dentro do pequeno vaso. Disse estridente por não encontrar palavra mais adequada para descrever aquele efeito que causavam certas estampas ou listras em televisão de antigamente, em que se perdiam os contornos e as cores vibravam, incomodando os olhos da gente. Esperei que a vista se acostumasse à luminosidade e então me aproximei intrigada. Entre as folhinhas gordas da planta pequena, sim, uma flor mínima, em forma de espanador, de um centímetro apenas de diâmetro, pétalas finas e abundantes. Uma estridência apenas, uma surpresa, um grito no meio do verde nada, uma flor quase sem adjetivos, mas de repente um adjetivo na minha sala.
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